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Capítulo 1 - A Fênix no ovo

Atualizado: 6 de ago. de 2023


[ALERTA GATILHO][Dr0g@s / @B0rt0 / Viol3nci@ Física / Aband0n0]

1991


Era uma noite como outra qualquer, em uma cidade na grande São Paulo, exceto pelo fato da criação da criatura com história extraordinária que sucederia ali.


Em um cômodo garagem, de um amontoado de casas, vários humanos entorpecidos por substâncias lícitas e ilícitas se encontravam. Onde já não existia sobriedade, tampouco haveria consciência ou razão, estes corpos se moviam sem algum tipo de lucidez, no meio destes, havia um casal entregue aos desejos carnais. Sobre o casal, não havia nada que os conectasse, exceto histórias de parentes e conhecidos que tinham muito mais em comum com qualquer um deles do que ambos juntos, não havia ligação, ao menos não até aquele dia.


Foram necessários menos de 2 minutos (é assim que descrevem este momento), não existiu prazer ou qualquer outra coisa além das necessidades da carne, um saiu dali satisfeito, outro nem sentiu, nada percebeu, acreditou que não passou de uma frustração por não atingir igualmente o seu objetivo carnal e continuaria sem perceber até um tempo depois. Após esta noite, seguiram ambos os seus caminhos, como meros conhecidos que se cumprimentavam quando se viam e possuíam pessoas em comum em seu meio social.


Chamaremos o casal, ao qual nunca puderam se determinar de fato tal termo, de Janys e Richard...


Janys, uma metamorfose que se estagnou psicologicamente em algum período juvenil de sua vida e se recusa a sair dali. A vida não foi fácil com a Janys, ela paga na mesma moeda.


Richard, um mistério até mesmo em sua previsibilidade, seus desejos e suas emoções são claros, porém ele nunca os conseguiu priorizar, como uma marionete, dançará eternamente de acordo com àquele que o tiver em suas mãos.


Pouco tempo depois, Janys começou a sentir os sinais de que não ocupava mais sozinha o mesmo lugar no espaço, o seu ventre carregava um ser, um ser que não era fruto da união reconhecida pelas leis dos homens ou de algum tipo de religião e imposta pela sociedade, era um ser tido como pecado, resultado da irresponsabilidade daqueles que não poderiam criá-lo, tampouco amá-lo e protegê-lo quanto deveriam, em nenhum momento na vida dele.


Janys morava com sua irmã mais velha, como forma de favor usava tal estadia, porém, por não abdicar seus vícios e atitudes questionáveis, foi posta para rua e viu-se sozinha com a necessidade de voltar para sua terra natal, no sertão do Nordeste no Brasil. Seu pai, carrasco e moralista, provavelmente não aceitaria que sua filha, a quem ensinou e educou, tivesse uma criança sem pai, tampouco sem que fossem casados, esta ideia era inconcebível. Sua mãe, amorosa e religiosa, não concordaria que aquela gestação fosse interrompida, mas conhecia o marido que tinha e precisava ajudar sua filha a se esconder enquanto o pequeno fruto crescia, e assim, conseguiu que suas irmãs, também no nordeste, mas em outro estado, aceitassem abrigá-la até resolvessem esta "situação".


Antes que Janys aceitasse a ideia de ir até o final, ela colocou em prática alguns planos para o fim da sua "situação", comprimidos, remédios e até mesmo socos e chutes (Janys lutava, tinha ótimo preparo físico e conhecia alguém que tivesse ousadia e desamor que a ajudasse). Completados três meses, era o momento de passar em consulta médica, foi corajosa em contar toda a verdade sobre seu desinteresse em prosseguir o curso daquela criação e quase tudo que havia tentado para conseguir se livrar daquilo, o médico, por sua vez, só a respondeu com a seguinte frase: _ Você pode tomar o Diabo em um copo, que não conseguirá matá-la. Era uma menina...


Janys seguiu para a casa dos seus parentes, desprovidos de uma vida confortável, dividiam com ela o que podiam, haviam dias que nada havia para dividir, outros dias por sorte conseguiam um pouco de farinha temperada com gordura e cebola frita, ainda assim, aquela menina possuía uma chama e mesmo com pouco se tornava o mais forte que podia ser, ela lutou muito para continuar ali, não haveria fome que a fizesse desistir.


Enquanto os dias passavam, os planos eram traçados. Era fato que Janys não poderia simplesmente assumir ao seu pai o que havia acontecido, ele não aceitaria. Ela também não possuía nenhum tipo de preparo que garantisse a possibilidade, mesmo que mínima, de criar sozinha aquela criança. A criança precisava ser doada, saber que era menina e suas previsões de características físicas baseadas em seus progenitores, já facilitavam a sua divulgação, ela poderia ser criada para ser cuidadora do lar, os principais interessados a queriam para este fim. No meio dos possíveis adotantes havia uma tia rica, cheia de propriedades que precisaria de uma empregada sem custo para uma delas e um casal que não havia conseguido gerar seu próprio fruto, estavam realmente interessados em receber a criança para dar muito amor e carinho, para ajudar, fisicamente eles pareceriam uma família aos olhos dos que desconhecessem a história. Foram determinados os eleitos pais, era este casal. O casal se preparava para receber a menina que brigava para permanecer naquele lar que não lhe queria.


Após comprarem todo enxoval e prepararem o seu quarto, foram informados de que o avô da criança desconhecia a história, ele era um homem temeroso, havia o risco de que descobrisse tudo e fosse atrás de cada um dos envolvidos tirar satisfação, dali não se esperava nada bom, era um risco que ninguém em sã consciência aceitaria correr. Terminaram o contato com a Janys e a família dela por um longo tempo, não informaram sobre sua desistência da adoção, apenas do medo de prosseguir com a mesma.


Mais meses passados, para Janys pode ter parecido anos, ela sentia-se fraca e cansada, precisava fazer muitas tarefas domésticas para compensar sua estadia, mesmo sem poder alimentar-se adequadamente. O lugar era distante de tudo, tratava-se de um sítio de cidade rural, desprovida de hospital e médicos de pronto atendimento, havia apenas uma ambulância que poderia levá-la para outra cidade, estabelecida à mais ou menos 30km de onde estava, para acioná-la, também precisariam se dirigir à casa onde havia um telefone fixo que se conectava com os demais, espalhados à distância um do outro.


Pelos cálculos, já era passada a hora da criança vir ao mundo, mas não haviam sinais de que aquele corpo que a abrigava estava pronto para este evento. Apesar da falta de sinais, a família de Janys a orientou a dirigir-se ao hospital e assim foi feito, todas as medidas foram tomadas para que ela conseguisse chegar lá, onde descobriria que já estava quase sem tempo para que a vida fosse preservada, mais uma vez a criança lutava, ela realmente queria participar do mundo em seu lado de fora.


Os médicos apressaram-se, não seria possível um parto de forma natural, além de já ter passado do tempo previsto, a criança estava nas costelas de Janys, o que não facilitaria as coisas, era como se tivesse buscando um lugar seguro para se proteger de mais tentativas contra sua vida, era como se entendesse que não era bem-vinda.


Enquanto Janys descobria que naquele dia se veria livre do corpo que habitava seu ventre, continuava na espera de notícias dos que seriam os pais adotivos daquela criança, seguia pedindo para que tentassem contactá-los, avisando que em breve o pacote estaria disponível para retirada no hospital indicado. Na medida que os minutos avançavam, ela já tinha em mente sua decisão, caso este casal não aparecesse, seu plano B seria posto em prática, era apenas ir embora dali e deixá-la lá mesmo.


A criança já havia concluído com vitória suas primeiras batalhas, com metade do seu corpo roxo por falta de oxigênio devido o tempo ultrapassado do seu momento de nascer, ela emitiu os seus primeiros sons após apanhar a primeira vez do lado de fora, assim, chorou forte pela primeira vez. Era seu primeiro grito de gerra...


Ela nasceu...


 
 
 

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